O sabotador sabotado

Eu sempre descobria os rastros que as memórias deixavam no semblante daqueles que na noite se escondiam, mas quase nunca descobriam minhas habilidades que em dias trabalhados ficavam ocultos na imensidão de minhas conquistas. Em alguns instantes mais réus apareciam, criminosos de todos os lados, muitos mereciam mais do que uma simples prisão, porém meu trabalho era apenas apresenta-los a justiça, embora trabalho não era de forma alguma o meu verdadeiro, era apenas um vício de invadir sistemas através de cyberataques, a noite me guardava a um pensamento heroico usando forças ocultas, e de dia me alimentava das trivialidades da vida com um emprego qualquer.

Eis que naquela noite, atormentado por fantasmas do passado, me deparo com a realidade de um magnata, pedófilo e corrupto do qual nem quero me lembrar de seus males distorcidos por pessoas como eu, mas jogando do outro lado.  Como pode ter tanta maldade, nem sei bem como alguém tem coragem de trabalhar com ele, vi em tudo que podia, e todos os defendem, se quisesse um cargo político o próprio povo o votaria tal é a falsa santidade a ele atribuído. Eu fiquei em minutos sem respirar e ao mesmo momento preocupado com o tempo que levariam para me rastrear, naquela noite eu não dormi.

O cheiro de bacon e pipoca na praça Santos Andrade, os barulhos de conversas alheias assim como seus sapatos tocando o chão, os carros buzinando e acelerando, o semáforo no vermelho, todo movimento caótico de Curitiba, me faz perceber como o campo é bom, mas se eu for para lá serei um inútil, preciso de um sistema operacional conectado à internet, e preciso de pessoas para bisbilhotar. Um homem, mais à frente na Rua XV, movendo várias marionetes apenas com o estalado dos dedos, e eu como curioso tentando encontrar o fio que as conectava, é claro, pensei, “deve ter alguma linha muito fina, não é possível que ele consiga fazer isto, não existe nada de sobrenatural, é apenas um truque”. Mais à frente uma cigana que por sorte minha não me viu, ela não precisa tirar minha sorte já sei que vai ser bom, pois ela não me abordou. Quase chegando perto do bondinho encontro um escandaloso religioso, falando alto sobre demônios e inferno, ninguém parava, mas ele insistia para “aceitar Jesus”, eu é claro não entendia o motivo de tanta devoção, qual o motivo de tanto misticismo, o que faz as pessoas deixarem a ciência para acreditar nisso? Não entendo, mas vejo como as pessoas são conduzidas por estas ideias, e as vezes vão para caminhos errados.

Era sábado e eu decidi sentar e comer algo antes de ir à biblioteca, ao me sentar, uma mulher chegou ao meu lado e entregou um bilhete, saiu velozmente, eu peguei o papel pensando ser o número do telefone dela ou algo assim, porém não foi uma boa notícia. Era um recado de que se eu denunciasse o tal magnata, eles me matariam, poderia não me atormentar, mas a minha frente vi dois homens altos e bem fortes me encarando. Não estavam brincando, mesmo que não me pegassem conseguiriam algo pior com minha família, e eu não poderia colocar eles em risco, então destruí as informações que tinha sobre ele embora no fundo queria muito vê-lo na cadeia, passei os outros dois meses sem bisbilhotar ninguém, era uma garantia de que eu e minha família estaríamos bem. Comentei com minha mãe, meio por cima sem falar nome, que tivera alguns problemas em fazer minha justiça. Minha mãe não me aprovou diretamente mas sabia que eu fazia a coisa certa, já denunciei cerca quase duzentas pessoas, mais da metade continua presa, minha mãe fez o que geralmente as mães fazem, ela disse que rezaria por mim.

Eu estava no meu quarto, era já três da madrugada, mas não estava dormindo, tinha um programa que desenvolvia nas horas vagas, como o outro dia seria domingo, queria aproveitar, e foi isto que eu fiz. Entretanto com o restante das luzes apagadas, a luz do meu quarto começou a piscar, pesei que a luz ia cair, mas não caiu, em poucos segundo tudo voltou ao normal, então algo estranho ocorreu, ouvi um barulho que parecia vir da sala, não dei importância poderia ser minha gata Lis, logo ouço outro barulho, porém uma voz parecia falar bem no meu ouvido “se você não parar de me bisbilhotar te farei mais visitas… você não vai gostar” isso arrepiei tudo mas ainda sem entender e com um pouco de coragem, falei “Quem está com esta brincadeira sai  daí, vou chamar a polícia” erro meu, como eu já estava levantado e com a porta do quarto aberta pude ver uma silhueta na sala, acendi a luz e vi algo horrível, um rosto sem lábios, aparecendo os dentes pontiagudos, olhos esbugalhados e a pele parecendo que estava derretendo tinha uma gosma escorrendo no rosto, o corpo estava escondido atrás da parede. Eu fiquei com tanto medo que simplesmente apaguei, e num piscar de olhos acordo na cama já pela manhã, fiquei com muito medo, pensei de início que seria apenas um pesadelo, porém meu computador ainda estava ligado e eu não me lembrava de deitar na cama, bom pelo menos tiraria os sapatos.

Contei o ocorrido para minha mãe — ela era a única a acreditar em mim — ela disse que este magnata tinha feito um pacto com algo sobrenatural e por isso eu tinha sido atormentado, me aconselhou a rezar e procurar ajuda. Foi então que fomos a estes lugares onde desfazem amarrações e coisa do tipo. Eu não sabia se acreditava ou não em algo sobrenatural, só sei que estava com medo. Entramos e ele pediu informações básicas até que viu o dito ser que me visitou, falou que era algo que nunca tinha visto, é muito poderoso e gosta de enganar as pessoas, parece que não tem uma forma real. Ele não sabia como resolver meu problema, só disse para fazer o que este ser pedisse, que ele iria embora. Bom ele queria que eu parasse de bisbilhotar o tal magnata, o que deveria fazer?

De uma certa forma precisava testar, ainda não estava acreditando que de fato algo sobrenatural estava ocorrendo, mesmo que o fato de ter alguém me observando ser real, não acreditava ainda que um uma entidade sobrenatural estivesse. Na madrugada fui ver como estava as coisas para o magnata, se a entidade existisse então ela apareceria novamente. Passei a noite inteira salvando conteúdo, eu iria denunciá-lo, na manhã seguinte meu pai me liga avisando que minha mãe está no hospital, ela tinha passado mal ontem à noite, detectei um padrão, sabia que se continuasse e denunciasse, minha mãe poderia morrer, era estranho, mas já estava acreditando nesta tal entidade. Eu apaguei novamente tudo e fui para o hospital, cheguei lá, minha mãe já tinha ganhado alta.

Voltando para casa, vejo um vulto, atrás de mim, era estranho, entrei na lanchonete procurando o tal vulto, mas só vi pessoas andando de um lado para outro, o que eu vi era totalmente preto, dava para perceber a diferença, saí e voltei para a rua. Atravessando a faixa com o sinal verde para pedestre, veio um carro em alta velocidade, bateu em mim e eu caí no chão, não me machuquei eu acho, acordei no hospital, falei que já estava tudo bem, mas ninguém queria me ouvir, coloquei minha roupa e saí andando. Ao pegar a Rua XV, vejo pessoas estranhas, muitas das quais eu nunca tinha visto, algumas usando fantasias, parecia um halloween curitibano, a cidade estava muito feia, não sei como, mas alguns conseguiram fazer o efeito da cabeça decepada. Foi quando andando vendo as bizarrices, sento nas escadas da faculdade da UFPR, de repente, veio um senhor bem velho e pergunta “Você é novo aqui? ” Eu respondo que não, moro em Curitiba há mais de cinco anos, o velho não falou nada, mas lá no fundo vindo da praça um homem com uma roupa preta, não sei como ninguém reparava, ele veio até mim, o senhor que estava do meu lado se retirou. Nada falou apenas sorriu e saiu.

Eu estava com uma segurança e uma vontade, pensei, não existe coisas sobrenaturais eu vou de fato denunciar aquele cara, abri os meus aplicativos no celular, baixei os dados do servidor e lancei na internet, direto para a polícia, o engraçado é que eu lembro de ter apagado os dados, mas por algum motivo ainda estavam lá. Eu vi em poucas horas as notícias de que o magnata estava preso, fiquei feliz e fui para casa.

Quando entrei na minha casa vejo minha mãe abrindo meu guarda roupa e chorando, eu perguntei qual era o motivo, ela não me respondia, perguntei várias vezes e era como se eu não tivesse ali, foi então que pensei em abraça-la. Foi em vão não poderia abraça-la, pois tinha morrido na manhã daquele dia, o que tinha restando era apenas um espírito que ficava vagando.

Este é um pedaço da minha história. Obrigado por psicografar, parece que a morte não é exatamente o fim e preciso encontrar sentido até mesmo depois dela, acredite aqui é mais difícil do que quando vivo. Adeus.

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As flores do mal

Hoje, exatamente hoje completamos dois anos de namoro. Não é incrível como as coisas passam rápido? Eu ainda lembro dela na livraria, usando um vestido azul florido, era verão e seu perfume emanava numa sintonia perfeita. Seus cabelos levemente cacheados e um sorriso meigo me convidavam a uma conversa, é claro que ela começou, eu só estava procurando alguma edição interessante de Rosseau, e entre os livros de filosofia ela também estava procurando algo.

— Nossa, só tem filosofia de séries! Virou moda, não é? – Ela me pergunta olhando firmemente e com um belo sorriso.

Eu não resisti, não podia simplesmente concordar precisava estender a conversa.

— É verdade. Eu praticamente nem assisto séries. Mas acho interessante, talvez os cinéfilos comecem a ler bons livros de filosofia e a ver que a filosofia é mais complexa do que parece.

— Ou os ávidos leitores de filosofia adquirem o habito de assistir séries de televisão.

— Ou esta improbabilidade! — Falei dando sorrisos.

—Eu sou Fernanda, e o você? —  ela estende as mãos para me cumprimentar.

— Renato, eu sou Renato!

A conversa se estendeu onde falamos quais eram nossos autores favoritos desde filosofia até ficção, tomamos um café depois. Tudo foi tão rápido que em pouco mais de uma semana já estávamos inseparáveis, íamos ao cinema nos fins de semana, almoçávamos juntos, fazíamos tour pela cidade só para ficar conversando nos lugares mais bonitos. Tudo era mágico, não demorou muito para pedir em namoro.

Hoje eu vou fazer uma surpresa para ela, estamos ultimamente tão absortos nos nossos estudos que vamos um na casa do outro não para namorar e sim para estudar, é o único momento em que ficamos um com o outro, é claro que namoramos, mas de forma rápida. Temos nossos estudos além dos problemas do trabalho. Às vezes eu ou ela posamos um na casa do outro só para ficarmos mais perto, mas mesmo assim está tudo muito corrido nem sei como estamos aguentando. Hoje à noite tem apresentação da orquestra sinfônica e eu sei que ela adora, não vou mentir, a música erudita também é minha paixão, vamos deixar um pouco os estudos e ir na apresentação será incrível.

— Hoje? Mas podemos comemorar aqui em casa, olha tenho até champanhe que comprei na volta. Eu estou bem cansada para sair hoje, e não estou no clima. — Ela fala se jogando na cama.

— Eu pensei que poderíamos sair um pouco, faz três meses que não saímos nem ao cinema ou ao shopping. Tudo que fazemos é ficar em casa, meus amigos acham que eu nem namoro mais, que você me deixou.

— Mas amor…. Nós vamos ter tempo no final do mês, lembra? Vamos pegar férias juntos e teremos metade do tempo para sair. Eu prometo que vou deixar meus estudos de lado neste período. — Ela me abraçou e deu um beijo, não pude resistir, e aliás ela estava certa, pegaremos férias e vamos descansar um pouco. Também não queria ficar chateado neste dia

— Tudo bem, você me convenceu! Mas dá próxima vez este teu poder hipnotizante pode não funcionar. — Falei com sorrisos, quando olho para o canto, perto da janela um buquê de rosas vermelhas, fiquei intrigado, não queria perguntar, pois deveria ser de alguma amiga, acabei que não falei nada.

Do jeito que as coisas estavam indo, este mês passaria rápido. As férias de inverno nos proporcionariam bons momentos. Eu moro com meus pais e ela sozinha, nossa frequência de visitas diminui muito depois destes meses, acho que estamos trabalhando muito, eu por exemplo saio as 5:00 da manhã e volto as 22:00, a faculdade dela é do outro lado da cidade assim como seu emprego. Os finais de semana tentamos descansar e está ficando cada vez mais raro nossa comunicação física, até mesmo feriados quando as vezes estamos juntos ela só fica estudando. Eu sou estudioso, mas ela é muito mais, muito mesmo.

Pensando nos poucos momentos que ficamos juntos, na semana seguinte eu pretendo fazer algo novo, tem feriado e eu disse que não iria na casa dela, mas vou fazer mais uma tentativa de surpresa, vou visitar ela. Ela deve estar dormindo ou estudando, tanto eu como ela gostamos de ficar sozinhos nos momentos de estudo, nos concentramos mais, percebemos isto depois de alguns meses de namoro.

Eu tenho a chave do portão, não preciso chamá-la no interfone. Bato na porta de seu apartamento, esperando com algumas flores, um buquê bem colorido. Ela abre a porta apressada, talvez esperando suas amigas para estudar juntas.

— Renato? O que você faz aqui? Não ia estudar com seus amigos? — Era óbvio que ela estava esperando alguma amiga, foi realmente uma surpresa para ela.

— Eu vou, mas mais tarde, agora vim te visitar um pouco. — Entregando o buquê — Você está com suas amigas? Faz tempo que não as vejo. — Entrando no apartamento, mas ao mesmo tempo sentindo que ela não queria que eu entrasse.

— Obrigada Renato! Mas na verdade ia sair, dar uma caminhada.

— Mas o café que você está fazendo? — Ao sentir cheiro do café fresco que estava sendo passado na cozinha, entro mais e vejo outro buquê, mas este era de margaridas. — Suas amigas não chegarão? Aposto que foi a Elaine quem lhe deu este buquê. — Ela corre para desligar a cafeteira. Suas amigas tinham costume de trocar flores, ela sempre recebera de várias cores.

— Sim, sim! Foi ela. Ela disse que vai demorar um pouco. Ainda bem que você me avisou do café, deixar isso ligado é um desperdício de energia. — Seu olhar estava diferente, não estava me olhando nos olhos, estava evitando. Mas talvez fosse apenas um desconforto que tinha quando seus pais brigavam, ela agia diferente e não liguei.

— Já que o café está quente, podemos tomar um e depois damos a caminhada. O que você acha? — Ela arregalou os olhos e disse:

— Depois… depois tomamos café. Vamos aproveitar enquanto eu estou com vontade. — Puxando minha mão e me levando para a porta, porém o interfone toca.

— Deve ser sua amiga, deixa que eu atendo. — Eu estava bem próximo do interfone, mas ela interrompeu colocando o corpo na frente e correndo para atender.

— Oi! Como vai?… Eu estou meio indisposta poderia vir outra hora?… Sim está ótimo! Tchau! — Ela não falaria isto para sua amiga, ocorreu-me de olhar a janela antes dela terminar a conversa com sua suposta amiga. Não era nenhuma de suas amigas, um homem da minha altura, cabelos lisos e curtos usando uma camisa laranja, carregando um buquê, não reconheci as flores.

— Você está indisposta? Pensei que íamos até fazer uma caminhada? — Tinha saído da janela ela não percebeu, ela estava agitada.

— É que… eu quero ficar mais um tempo com meu namorado! Podemos caminha depois… — se aproximou de mim tentando dar um beijo, mas esquivei um pouco nervoso.

— Quem era? — Perguntei, mas sem expressar minha raiva.

— Bom… era a Elaine, lembra ela viria aqui. — Pensei um pouco e retruquei.

— Você deixou ela lá fora? Ela veio aqui só para tiver e você fez sua amiga voltar para casa? — Percebi que estava ficando nervoso, não resolveria nada agora era melhor eu esfriar. — Eu lembrei que marquei de encontrar com Anderson daqui meia hora, é melhor eu ir. — Já me aproximando da porta, ela me deu um beijo rápido.

— Se você precisa ir então tudo bem. Você vem amanhã?

— Não, não…. Eu vou estudar…. Até mais. — Saí correndo e não via a hora de chegar em casa.

Eu pensei em abordar o cara que estava saindo com minha namorada — sim no dia seguinte eu a vi ela saindo com ele, e beijando na boca, de uma forma que ela não me beijava mais — mas desisti, não resolveria. Estava com um ódio muito grande, lembrei que nossa relação já tinha acabado a algum tempo, mas ela deveria ter me avisado. De repente me veio na cabeça se ela sempre fizera isto comigo, ou seja, se as flores que ela ganhava das suas amigas era na verdade de outros amantes. Fui até a casa de Elaine, mas ela não estava, então encontrei na praça sem querer outra amiga de Fernanda, Estefani, e perguntei se elas tinham o costume de trocar flores. Ela disse que jamais trocaram flores e ainda me questionou o motivo de querer saber disso se eu já tinha deixado ela a três meses. Isso me desmoronou, “Ninguém troca flores, mas vocês já não terminaram há três meses? ” Estas palavras ficaram na minha mente o dia inteiro.

A noite eu tive uma ideia, eu alugaria um apartamento perto do meu trabalho, só por alguns meses para despistar ela, não queria mais ver e estava decidido, estão escrevi esta carta:

“Fernanda,

O perfume que imaginava eu emanar dos lindos cabelos encaracolados, e se agitava em sorrisos tão meigos me prendendo desde o início. Era na verdade um aviso do nosso efêmero amor que se diluía na longa distância que nossos pensamentos estavam. Eu que senti de todas estas flores o mal que me causou, estou agora tão longe quanto você queria. O tempo nos matou pouco a pouco e o que eu senti de você foi o perfume barato e a tua indecência que não serve mais, das águas que caem quase queimando em meu rosto sinto seu cinismo e sua sedução saindo das vítimas tontas. Volta para a sarjeta e encontre quem lhe queira, pois, para você mentir foi fácil demais, teus truques banais, você acabou ficando para trás. Todos já sabem o que você faz! ”

Era incrível o que ela fazia, saia as vezes até com dois ao mesmo dia, nenhum sabia, e eu só depois de tudo isto, fico pensando quantos deles pediram em namoro e quantos amantes ela realmente tinha. Eu não sei e nem quero mais saber. Ela não me procurou mais, mas isto me alertou e me fez pensar seriamente em ficar solteiro por um bom tempo.

Ela não era assim, ainda não entendo toda cadeia de acontecimentos que existiu para o amor se extinguir, mas sei agora o que todos os outros amantes souberam, não vale apena gastar nosso amor com uma mulher como ela.

O tempo

Acordei um pouco estranho, era como se eu não estivesse aqui, como se eu não devesse estar aqui. Ao olhar no espelho vejo quanto tempo passou e quanto tempo ainda tenho, comparo com a foto de quando tinha catorze anos de um lado, e do outro a foto de meu pai com cinquenta anos. A vida é muito delicada, ninguém sabe quando vai acabar e por um tempo achei que devesse saber.

Estou indo para meu laboratório, estou dizendo isto pois vocês não podem me ver, e é hilário, pois gastei todo meu dinheiro construindo meu laboratório, depois que fui expulso por não concordar com experimentos agressivos a humanidade. Ou eu concordaria em criar uma nova e incrível máquina para o exército, e olha que nem era daqui, era para os estadunidenses, ou eu seria expulso do meio científico, acabariam com minha carreira e eu sei que eles conseguem fazer isto, pois é o que eu estou vivendo agora. Nem sei se vale apena gravar tudo isto, mas se vocês estiverem me escutando, saiba que eu prefiro morrer do que incentivar a atos contra as pessoas.

Bom, tenho mais um pouco de alimento, para mais um mês, talvez dois se eu racionar. Então acho que posso tentar mais um pouco, não posso parar e fazer minhas pesquisas, até pensei que não receberia mais nada do governo, pensei que não me pagariam o último mês, acho que eles não queriam me pressionar, sabe, pensaram que eu me arrependeria, mas eles estavam enganados. O resultado é que vendi quase tudo, até meu celular, não tenho como gravar vídeos, então estou usando este antigo gravador de fita cassete, vou ter que gravar em cima das músicas de meu falecido pai.

Vocês não podem ver, mas eu tenho um tubo de ensaio contendo milhares de nano-robôs, cerca de cem miligramas. Eu os chamo Oigólers, sim é relógio ao contrário, não encontrei um nome mais adequado, por enquanto vai ficar assim, pois na verdade eles fazem justamente isso, contar o tempo de forma inversa, vocês já vão entender. Eu espero que sejam várias pessoas que estejam me ouvindo no futuro.

No início da pesquisa eu usava telômeros para calcular o envelhecimento de uma pessoa, mas isto era antes de tudo uma forma de calcular a aceleração com que o tempo estava passando e não o tempo final em si, também, é claro consegui com dificuldade calcular o tempo exato que uma pessoa estava viva, desde a fecundação. Mas eu agora estou em outra etapa, calcular o tempo que a pessoa tem até morrer nas condições atuais, a utilidade é gigantesca, poderia prevenir doenças que iriam ocorrer usando as variações das medidas.

Eu estou gravando isto, pois eu não tenho cobaias e preciso testar em alguém, bom só sobrou eu. Assim sendo vou testar em mim primeiro, a princípio não vou sentir nada mas pode acontecer imprevistos, principalmente psicológicos, mas estou preparado.

Droga! Como isso dói! Não era para doer…. Parece que minhas veias estão pegando fogo!

Só para saberem, estou deitado no chão a quase uma hora, e muito tonto, eu tive que trocar de fita. Para calcular o meu tempo, eu criei extrator de informação, para os nano-robôs se comunicam com este, ele é na verdade um cubo bem denso, toda informação consigo por ele.

Estou sentado no sofá, e este cubo duro não quer me dizer nada, isto significa que eu fracassei.

Eu não estou gravando apenas para registrar este acontecimento, mas sim para lhe dizer que não posso mais retirar estes Oigólers do meu corpo, e se eles não fazem o que foram programados, então estão fazendo algo errado, não preciso mais deles, sei que meu tempo é muito curto agora. Bom ao menos sei que vou morrer olhando para o céu.

Meus experimentos foram um fracasso esqueçam isto, e usem outros métodos se tentarem. Todo meu corpo está dormente, mas estou calmo, e não foi um suicídio foi apenas um erro. O tempo acabou.

FIM DO ÁUDIO.

Meu primeiro ebook!!

divulgacaofe

Este é apenas um de tantos contos que pretendo publicar, é um universo que estou criando desde os meus catorze anos, quando a física me fascinou. Aqui apresento apenas o primeiro conto envolvendo nossa personagem feminina, Ester. Ela é uma bióloga que precisa entender varias coisas que estão ocorrendo, principalmente com seu querido amado, Aron. Esta parte do universo, que é dividida em quatro, conta um pouco sobre os derivados aparatus (Homo Apparatus), estes por sua vez são a evolução do homo sapiens sapiens, uma evolução ígnea, através de nano-robôs  altamente sofisticados em que homem-máquina é uma união inseparável. As outras histórias envolverão os pulchruns, os ciborgues e uma nova espécie especial, além é claro de seres extraterrestres.

O ebook encontra-se disponível na amazon, através do link: Fravx: Ester 

Acompanhem este blog pois vou postar muitas coisas referente a este universo!!

Pensando em mim

"É difícil caminhar, quando o ar se torna pesado e o respiro frio em lâminas de gelo.
 O pensamento adormece e congela no tempo"

Eu estava lá, como sempre, olhando para lua, ela estava bonita, muito mais do que o próprio céu. Fiquei horas observando o seu deslize pelo horizonte, pouco a pouco a noite me deixava assim como a lua que permanecia com seu tão suave brilho.

Gostaria de entender o sentimento mais puro que alimenta minha existência, assim como os pensamentos que insiste em me atormentar. Já fiz de alguns momentos glórias e derrotas, mas não entendo o motivo deles, tão pouco de estar aqui, olhando para Lua.

Embora muitos me julguem incapaz de compreender as razões divinas das quais tanto veneramos e pouco questionamos, sei que para cada pergunta criada nos nossos pensamentos, ainda que pouco percebemos existem respostas, e elas se encaixam como em um quebra cabeça. E assim sendo, olho para os feitos do passado, e a cada passo lento e frio, mas certeiro, crio meu futuro, tão diferente e tão previsível para os que observam, que as vezes não percebem as lacunas da minha construção, pois estão nos alicerces, abaixo dos tijolos e pilares. Eu as substitui, pois achava danificadas com o tempo e não havendo outro meio de concertá-las abandonei por algum tempo, talvez tempo demais.

Agora estou só, observando uma ordem tão previsível, pois é frequente, como se a todo instante desejasse nos dizer algo além de sua beleza. Mas ainda não vejo as respostas que manterá firme minha construção, pois ela já está muito frágil, e devido a sua pouca resistência, tão poucos tijolos são colocados. E assim, só agora o que era previsível torna-se tão diferente que poucos se arriscam falar qual o caminho que um estranho e solitário está e para onde o levará.

Vazio

    O que diria uma pessoa, que inesperadamente encontra este rapaz, meio desajeitado, incrivelmente distraído, mas acidentalmente normal? Sim acidentalmente pois ele poderia ser chamado de um superdotado, uma pessoa incapaz de incomodar-se com detalhes menos importantes da vida, poderia até ser considerado a uma pessoa de alma pura. Infelizmente o conceito de alma não fazia sentido para ele, tão pouco um superdotado, ele acredita que todos somos inteligentes, só basta estimularmos. Talvez esteja certo, mas afinal o que uma pessoa diria a seu respeito?

      Talvez todos os inteligentes sejam tímidos, ou quem sabe é apenas a sua personalidade, pois independente do que ele era ele guardava seus traços esquisitos. Ele era diferente, mas parecia tão normal, suas esquisitices eram toleradas por todos, menos por ele próprio, independente do que as pessoas pensavam, ele sabia que era anormal, por dentro. Quem poderia pensar que a aparente normalidade era forçada, construída detalhe por detalhe? Quem poderia ver além do que ele aparentava?

        Era difícil saber, pois já se esforçava a tanto tempo para parecer normal que sabia enganar muito bem, não era o mestre dos disfarces pois as vezes deixava escapar suas esquisitices. Embora não tenha nunca encontrado alguém, ele gostaria de poder um dia olhar para uma pessoa sem usar as habilidades da comunicação para enganá-la, simplesmente ser o que ele realmente é. Embora fosse sincero com as palavras, ele não podia ser sincero com as suas atitudes, sua sinceridade espantava as pessoas e ele ficava sozinho. Ele gostava da solidão mas as vezes ela doía. Ele sabia que tinha um vazio, uma dor estranha que ele não sabia explicar.