A Civilização da Empatia

Por Jeremy Rifkin

Nos últimos 10 anos, houve interessantes avanços em biologia evolutiva, ciência neurocognitiva, desenvolvimento infantil, pesquisas e muitos outros campos, os quais estão começando a desafiar alguns destes jargões enraizados que temos sobre a natureza humana e o significado da jornada humana. Mas há um novo quadro de referências emergindo na ciência que é bem interessante e, realmente, desafia essas suposições. E, com isto, as instituições que criamos baseadas nestas suposições, nossas instituições educacionais, nossas práticas comerciais, nossas instituições governantes, etc. Deixe-me levá-lo de volta ao início dos anos 90, sonolento laboratório em Parma, Itália. E os cientistas fizeram uma imagem de ressonância magnética cerebral (IRM) em um macaco enquanto o macaco estava tentando abrir uma noz. Eles queriam ver como os neurônios reagiriam. Então, quando o macaco está tentando abrir a noz, os neurônios reagem e, por acaso é assim que ciência acontece algumas vezes, um ser humano entra no laboratório, eu não sei se foi por engano, ele estava com fome e viu algumas nozes e abriu uma delas e tentou parti-la. O macaco ficou totalmente chocado, porque, quem é esse invasor em seu laboratório? Ele não se moveu, somente fitou este humano tentando abrir a noz como tinha feito alguns segundos antes. Os cientistas olharam a máquina de scanner cerebral e exatamente os mesmos neurônios estavam reagindo, quando ele observou o humano abrindo a noz, como quando o macaco abriu a noz, os cientistas não tinham nem idéia do que era isso, eles acharam que o aparelho de IRM havia quebrado.

Então, eles começaram a colocar a máquina para escanear outros primatas, especialmente chimpanzés com o nosso grande neocórtex. Então, eles tentaram com os humanos, e o que eles acharam repetitivamente é o que chamamos de “neurônios espelho”. E isso quer dizer que, aparentemente, nós estamos interconectados, alguns dos primatas, todos os humanos, suspeita-se que elefantes também, e ainda não temos certeza sobre golfinhos e cachorros. Apenas começamos. Mas todos os humanos estão interconectados com neurônios espelho. Assim, se eu estou observando você, sua raiva, sua frustração, seu senso de rejeição, sua alegria, o que seja, e eu posso sentir o que você está fazendo, os mesmos neurônios irão reagir em mim, como se eu mesmo estivesse experimentando isso.

Agora, isso não é tão incomum assim. Nós sabemos que se uma aranha sobe no braço de alguém, e eu estou observando ela subindo no seu braço, eu vou ter uma sensação de arrepio. Nós subestimamos isso, mas estamos realmente interconectados ao vivenciar o sofrimento alheio como se nós mesmos estivéssemos vivenciando. Mas neurônios espelho são apenas o começo de todo um conjunto de pesquisas realizadas na neuropsicologia, em investigações sobre o cérebro e o desenvolvimento infantil, que sugerem que não estamos interligados para agressão, violência, interesse pessoal e utilitarismo.

Na verdade, estamos interligados para a sociabilidade, “vinculação”, como diria John Bowlby, afeto, companheirismo, e que o primeiro impulso seria o do “pertencer”. É uma atividade de empatia.

O que é empatia?

É bem complicado.

Quando bebezinhos estão no berçário e um bebê chora, os outros bebês irão chorar como resposta, eles só não sabem porquê. Isso é uma aflição empática, está construída em sua biologia. Por volta de 2 anos e meio de idade, uma criança pode se reconhecer no espelho. É aí que começa a amadurecer empatia como um fenômeno cultural. E, então, uma vez em que uma criança consegue identificar a si mesma, então, eles saberão que, se estiverem observando outra pessoa ter um sentimento, eles sabem que se sentirem algo, estarão sentindo isso porque outra pessoa sentiu o mesmo. São dois seres separados. A individualidade acompanha o desenvolvimento da empatia. Aumentando a individualidade, aumenta também o desenvolvimento da empatia. Por volta dos oito anos de idade, as crianças aprendem sobre o nascimento e a morte, elas aprendem de onde vieram, que têm uma e apenas uma vida, que a vida é frágil e vulnerável e que um dia irão morrer. Esse é o início de uma viagem existencial. Porque, quando as crianças aprendem sobre o nascimento e a morte e que possuem apenas uma vida, elas percebem quão frágil e vulnerável é a vida. É muito difícil se manter vivo nesse planeta, seja você um ser humano, ou uma raposa passeando na floresta. Então, quando uma criança aprende que a vida é vulnerável e frágil, e que cada momento é precioso, e que elas têm sua própria e única história, isso permite à criança, então, vivenciar o sofrimento alheio da mesma maneira. Que, essa outra pessoa, ou outro ser (poderia ser outra criatura), possui uma e apenas uma vida… É difícil estar vivo e as chances nem sempre são boas.

Então, se você pensar sobre o tempo que empatizamos com cada um ou criaturas semelhantes, é sempre porque nós sentimos suas lutas. Nós temos o sopro da morte e a celebração da vida na empatia. E nós mostramos solidariedade com nossa compaixão. Empatia é o oposto de Utopia.

 Não existe empatia no Paraíso, eu lhe garanto, digo-lhe antes de você chegar lá. Não há nenhuma empatia no Céu porque não há mortalidade. Não existe empatia na utopia porque não existe sofrimento. Empatia é baseada no reconhecimento da morte e na celebração da vida e na torcida para que cada um prospere e seja. Está baseada em nossas fragilidades e imperfeições. Então, quando falamos em construir uma civilização empática, não estamos falando sobre Utopia. Estamos falando sobre a habilidade do ser humano em demonstrar solidariedade, não apenas entre si, mas para com as nossas criaturas semelhantes as quais têm uma e apenas uma vida neste pequeno planeta. Nós somos “Homo-Empathicus”, então, eis aqui a questão. Sabemos que a consciência muda no decorrer da história. A forma como nosso cérebro é conectado hoje, não é a mesma como o cérebro de um servo medieval, tampouco seus cérebros teriam as mesmas conexões que o de um caçador há 30.000 anos passados.

 Assim, a questão feita no início deste estudo, seis anos atrás é: Como é que a consciência muda na história?

Porque eu queria imaginar as seguintes proposições:

É possível que nós humanos estejamos interconectados por uma empatia de aflição? É possível que, possamos realmente estender nossa empatia a toda a humanidade, como uma extensão de nossa família, e também às criaturas semelhantes como parte de nossa família evolutiva, e à biosfera, como a nossa comunidade em comum?

Se é possível imaginar isso, então, talvez seja possível salvar nossa espécie e salvar nosso planeta. E quando lhe digo esta noite, se for impossível até mesmo imaginar isto, eu não vejo como iremos conseguir.

Empatia é a mão invisível. Empatia é o que nos possibilita estender a nossa sensibilidade ao outro, para que então possamos persistir em unidades sociais mais amplas.

Empatizar é civilizar, civilizar é empatizar. Nas sociedades de caçadores em busca de alimentos, a comunicação apenas se estendia às tribos locais e à distância do grito.

Todos aqueles atrás da próxima montanha eram alienígenas desconhecidos. Então, a empatia se estendia apenas aos laços de sangue. Quando passamos para as grandes civilizações agrícolas hidráulicas, isso nos permitiu estender o sistema nervoso central e destruir por completo mais tempo e espaço trazendo pessoas juntas e a diferenciação de habilidades.  O crescimento da individualidade não apenas levou a uma consciência teológica, mas levou a extensão da empatia a uma nova ficção. E isso é, ao invés de associação apenas por laços sanguíneos, nós destribalizamos e começamos a nos associar com base em laços religiosos. Então, uma nova ficção, Judeus começaram a ver todos os outros Judeus como uma extensão da família e a empatizar com Judeus Cristãos começaram a ver outros Cristãos como extensão familiar e a empatizar com Cristãos, Muçulmanos igualmente. Quando chegamos ao século 19, a revolução industrial e nós ampliamos mercados, agora para regiões mais abrangentes e criamos uma ficção chamada “O Estado Nação”.

E, de repente, Britânicos começaram a ver outros Britânicos como extensão da família, e Alemães começaram a ver os Alemães como extensão da família, e os Americanos o mesmo. Não existia tal coisa como “Alemanha”, nem existia “França”. Isso são ficções. Mas elas nos permitiram estender nossas famílias ao ponto de termos lealdades e identidades baseadas na nova e complexa revolução na comunicação e energia que temos que aniquila tempo e espaço. Mas, se partimos da empatia por laços de sangue para empatia em laços de associação religiosa para empatia baseada em identificação nacional… Seria realmente um grande salto imaginar as novas tecnologias nos permitindo conectar nossa empatia a toda raça humana em uma única biosfera?

E por que motivo pararíamos aqui na identidade de Estado-Nação e ter apenas empatia ideológica, ou teológica, ou mera empatia tribal, baseada em laços de sangue?

Nós temos a tecnologia que nos permite estender o sistema nervoso central para pensar realmente como uma família, não apenas intelectualmente.

Quando o terremoto atingiu o Haiti, e depois o Chile, mas especialmente o Haiti, em menos de uma hora, vários “tweeters” surgiram, em duas horas, foram postados vídeos de celulares no YouTube, e em três horas, toda a humanidade estava em um “abraço de empatia”, para enviar ajuda ao Haiti. Se fôssemos como os iluminados filósofos sugeriram, tão materialistas, individualistas, utilitaristas e apenas buscássemos prazer, não haveria como explicar a resposta ao Haiti. Aparentemente, 175 mil anos atrás, na Grande Fenda Africana (Vale da Rift), existiam aproximadamente 10 mil humanos anatomicamente modernos caminhando na região, nossos ancestrais.

 Geneticistas localizaram uma mulher, que é a linha de base de dados aparentemente, seus genes foram passados a todos nós. As outras mulheres não conseguiram isso. Fica ainda mais estranho… Localizaram um homem, que é o ponto de partida para a genética, eles o chamaram de “Adão cromossomo Y”, aparentemente um cara muito potente, seus genes passaram a todos aqui.

Então, aqui está a novidade: 6,8 bilhões de pessoas, em vários estados de consciência teológica, ideológica, psicológica, dramatúrgica, todos lutando uns com os outros com ideias diferentes sobre o mundo, e adivinha o quê?

Todos nós viemos de duas pessoas. A Bíblia acertou essa.

Nós poderíamos ter surgido de vários, mas o ponto é que nós temos que começar a pensar como uma extensa família. Temos que ampliar o nosso senso de identidade. Nós não perdemos as antigas identidades de nação, e nossas identidades religiosas, nem mesmo nossos laços sanguíneos. Mas nós estendemos nossas identidades ao ponto de pensar em toda a humanidade como nossos companheiros de jornada. E as outras criaturas aqui como parte de nossa família evolutiva, e a biosfera como a nossa comunidade.

Temos que repensar a narrativa humana. Se somos verdadeiramente Homo-Empathicus, então, temos que deixar aflorar aquela essência da natureza porque, se não aflorar e for reprimida pelos nossos pais, nosso sistema educacional, as nossas práticas empresariais e governamentais, o que é secundário surge, o narcisismo, o materialismo, a violência e a agressão. Se podemos ter um debate global, vamos começar aqui da Royal British Society for the Arts, o que aparentemente você está fazendo.  Para começar a repensar a natureza humana. Para trazer a nossa sociabilidade empática, para que, então, possamos repensar as instituições e a sociedade e preparar as bases para uma civilização empática.

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Precisa acabar!

Quando eu era um jovem crescendo na cidade de Nova Iorque, me recusei a jurar lealdade á bandeira. Obviamente, fui mandado para a sala do diretor. E ele me perguntou: “por que não quer fazer o juramento? Todos fazem”.

Respondi que todos já acreditaram que a Terra era plana, mas que isso não a tornava plana. Expliquei que os EUA deviam tudo o que tinham a outras culturas e outras nações e que eu preferiria fazer juramento á Terra e a todos os seus habitantes. Nem preciso dizer que não demorou para sair da escola completamente.

 Montei um laboratório em meu quarto. Lá comecei a aprender sobre ciência e natureza. Percebi, então, que o universo é regido por leis e que o ser humano, junto com a sociedade em si, não estava livre destas leis. Veio então a crise de 1929, que iniciou o que hoje chamamos de a “Grande Depressão”.

 Eu achava difícil de entender porque milhões estavam desempregados, sem teto, passando fome enquanto todas as fábricas estavam lá paradas. Os recursos seguiam os mesmos. Foi então que percebi que as regras do jogo econômico eram inerentemente inválidas.

 Logo depois, veio a Segunda Guerra Mundial, onde várias nações revezavam-se destruindo sistematicamente umas as outras.  Eu depois calculei que toda a destruição e recursos desperdiçados naquela guerra poderiam ter facilmente satisfeito todas as necessidades da humanidade.

 Desde então, tenho observado a humanidade preparar a sua própria extinção. Vi os recursos preciosos e finitos serem continuamente desperdiçados e destruídos em nome do lucro e do livre mercado. Vi os valores das sociedades serem reduzidos a uma artificialidade baixa de materialismo e consumo irracional e vi o poder monetário controlara estrutura política de sociedades supostamente livres.

 Hoje, tenho 95 anos e receio que minha postura seja a mesma de 75 anos atrás. 

 Essa merda precisa acabar…

 Jacque Fresco

Aristóteles e Higgs: uma parábola

Por Marcelo Gleiser

 

Aristóteles e Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede o seu uísque de puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, fica com um copo de vinho.

“Então, ouvi dizer que finalmente encontraram”, diz Aristóteles, animado.

“É, demorou, mas parece que sim”, responde Higgs, todo sorridente.

“Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!”

“Como é?”, pergunta Higgs, atônito. “Você não acha que…”

“Claro que acho!”, corta Aristóteles. “Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?”

“De jeito nenhum!”, responde Higgs, furioso. “O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas.”

“Vocês cientistas e suas previsões…”, diz Aristóteles. “Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o meu éter é uma excelente explicação para o que ocorre nos céus?”

“Talvez tenha sido há 2.000 anos. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler”, diz Higgs.

Aristóteles olha para Higgs com desprezo. “Você está se referindo a esse ‘método’ de vocês, certo?”

“O método científico, para ser preciso”, responde Higgs, orgulhoso. “É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo.”

“Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método.”

“É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto.”

“E como você sabe o que é certo ou errado?”, rebate Aristóteles. “O que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã.”

“Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona”, responde Higgs.

“Nos meus tempos bastava ser convincente”, reflete Aristóteles com nostalgia. “Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo”, continuou. “As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!”

“Posso imaginar”, responde Higgs. “Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do bóson de Higgs é tão importante.”

“É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter”, provoca Aristóteles.

“Um éter bem diferente do seu”, responde Higgs.

“E por quê?”, pergunta Aristóteles.

“Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada.”

“Claro que não! Era perfeito e eterno”, diz Aristóteles.

“Nada é eterno”, rebate Higgs.

“Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!”, afirma Aristóteles.

“Touché, você me pegou”, admite Higgs. “Não podemos saber tudo.”

“Exato”, diz Aristóteles. “E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba.” “Parabéns pela descoberta do seu éter”, diz Aristóteles.

“Existem muitos tipos de éter”, afirma Higgs.

“E muitos tipos de bósons de Higgs”, retruca Aristóteles.

“É, vamos ter que continuar a busca.”

“E o que há de melhor?” Completa Aristóteles, tomando um gole.

O objetivo da tecnologia é justamente libertar a humanidade do trabalho

“A satisfação de necessidades físicas é por certo a precondição indispensável de uma existência satisfatória, mas em si mesma não é suficiente. Para se realizar, os homens precisam ter também a possibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artísticas em limites restritivos, segundo suas características e aptidões pessoais.

Para que esta meta , isto é, a possibilidade de desenvolvimento espiritual de todos os indivíduos, possa ser assegurada, é necessário um segundo tipo de liberdade externa. O homem não deve ser obrigado a trabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal que não lhe restem tempo nem forças para as atividades pessoais. Sem este segundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expressão é inútil para ele. Avanços na tecnologia tornariam possível esse tipo de liberdade, se o problema de uma divisão justa do trabalho fosse resolvido.” 

(Albert Einstein)

 

O grau de “valor” de um produto ou serviço se deriva basicamente de dois fatores:

1.  A escassez (disponibilidade) do material usado. 

2.  A quantidade  de  mão-de-obra  necessária  para  produzir  um  produto  ou serviço. 

Por exemplo:

Imagine quanto  tempo  e  esforço  seria  necessário  para  criar  uma  simples camisa  antes  do  advento  da  eletricidade  e  da  avançada  tecnologia  industrial.  O processo geral  deveria  ser:  preparar  a  solo  –  plantar  a  semente  do  algodão  – supervisionar o período de  crescimento  –  colher  o algodão – extrair  a  semente – fiar  o  algodão,  transformando-o  em  linha  –  tecer  a  linha,  transformando-a  em tecido – e, com o tecido, confeccionar a camisa.

Dado o exemplo acima, apenas  levando em consideração a mão-de-obra, o valor da camisa seria relativamente alto e ela provavelmente seria vendida por um preço  de  acordo  com  esse  extensivo  trabalho.  O  valor  da  semente  do  algodão (componente  material)  seria  desprezível  já  que  ela  é  produzida  como  um subproduto da colheita principal, fazendo com que seu grau de escassez seja muito baixo. Portanto, o real valor dessa camisa se daria através do trabalho envolvido.

Agora,  hipoteticamente  falando,  e  se  esse  processo  de  produção  não requeresse  mão-de-obra,  enquanto  a  semente  do  algodão/água/luz  solar/solo mantivesse  sua  abundância  natural?  Qual  seria  então  o  valor  da  camisa?  Obviamente, ela não teria valor algum.

No início do século XXI, máquinas industriais tomaram a função de plantar e colher produtos agrícolas ao ponto de um único fazendeiro poder trabalhar mais de  1000  acres  de  terra  sozinho.  O  advento  de  equipamentos  têxteis,  como  o  descaroçador de algodão,  reduziram dramaticamente o esforço humano, enquanto  que, com o moderno uso de computação industrial, estamos vendo uma constante gravitação à quase total automatização das indústrias agrícola e têxtil, entre muitas outras.

A  questão  é  que  o  emprego  do  “valor  econômico”  como  uma  noção econômica  aparentemente  estática  está  sendo  agora  revisado  por  essa  influência tecnológica  (aumento  da  facilidade  de  produção/abundância material)  que  pode, teoricamente, eliminar totalmente a noção de “valor”.

Quando a mão-de-obra é reduzida/substituída por tecnologia e automação, o suposto “valor” que equaliza o “trabalho” ao “preço” cai respectivamente. O “valor” do produto seria então  transferido para a criação/manutenção da maquinaria, que agora  faz  o  papel  dos  trabalhadores.  Consequentemente, quanto mais eficientes, duráveis e  sustentáveis  forem  essas máquinas  operárias, mais  cairá  o  “valor”  da produção. 

A  realização é que a automação das máquinas,  juntamente com modernas inovações  que  estão  encontrando  substitutos  para  recursos  “escassos”,  poderia conduzir-nos a um ponto onde nenhum bem ou serviço precisaria de um “valor” ou etiqueta de preço. Simplesmente não faria nenhum sentido teórico. 

Para a maioria,  isso é uma coisa muito difícil de considerar, graças ao que estamos  acostumados  a  experimentar  em  nosso  dia-a-dia.  Independente  de  sua opinião,  o  fato  é  que  a  tendência  de  constante  avanço  tecnológico  unido  à maquinaria automatizada pode  teoricamente criar um ambiente econômico onde a abundância de materiais e meios de produção são  tão elevados e eficientes que a maioria dos humanos terá pouca necessidade de “comprar” algo, deixando de lado o “trabalhar para viver” no senso tradicional. 

No  cerne  do  sistema  econômico  está  o  mecanismo  de  trabalho  por rendimento.  Todo  o  nosso  sistema  econômico  é  baseado  em  seres  humanos vendendo  seus  labores  como  uma mercadoria  no mercado  livre.  Se  os  humanos não tivessem a opção de “trabalhar para seu sustento”, o sistema monetário como conhecemos, acabaria.

Ninguém pode comprar mercadorias se não ganha dinheiro. As companhias não podem  produzir  se  o  consumidor  não  tem  poder  de  compra  algum. 

Como  John  Maynard  Keynes,  em  The  General  Theory  of  Unemployment, Interest and Money, aponta com desdém: 

“Estamos sendo afetados por uma nova doença, sobre a qual alguns leitores podem  ainda não  ter  ouvido  falar, mas que  certamente  irão nos  anos que estão por vir – a  saber, o  ‘desemprego  tecnológico’.  Isto  é, o desemprego causado  por  nossas  descobertas  de  meios  de  economizar  trabalho ultrapassando  o  ritmo  no  qual  conseguimos  descobrir  novos  usos  para ele.”

Embora  políticos,  líderes  empresariais  e  proletários  debatam  acerca  dos problemas  que  eles  alegam  serem  os  responsáveis  pelo  crescimento  do desemprego mundo  afora,  como  o  outsourcing  de  companhias  estrangeiras  ou  o trabalho  imigrante,  a  verdadeira  causa  não  está  sendo  abordada  no  debate público: o desemprego tecnológico. 

Nas palavras do economista ganhador do Prêmio Nobel Wassily Leontief:

“O papel dos humanos como os  fatores mais  importantes na produção está fadado a diminuir do mesmo modo que o dos cavalos na produção agrícola foi  primeiramente  reduzido  e  depois  eliminado  com  a  introdução  dos tratores.”

Desde que o capitalismo mercantil é baseado na lógica de reduzir os custos de  entrada  (incluindo  os  de  mão-de-obra)  para  elevar  os  lucros,  a  tendência  a substituir força de trabalho humana sempre que possível por automação mecânica é uma progressão natural na indústria. Afinal, uma máquina não precisa descansar, não exige plano de saúde ou benefícios, e não  faz parte de um exigente sindicato trabalhista. 

Em 1949, as máquinas colhiam 6% do algodão no sul dos EUA. Por volta de 1972, 100% da colheita de algodão passou a ser feita mecanicamente. Quando a automação atingiu o setor de produção americano na década de 50, 1,6 milhões de empregos de  colarinho azul  foram perdidos em 9 anos.

Em 1860, 60% dos EUA trabalhavam na agricultura, ao passo que hoje são menos de 3%.  Em  1950,  33%  dos  trabalhadores  americanos  trabalhavam  no  setor  de produção, enquanto que por volta de 2002 tornaram-se apenas 10%. A indústria metalúrgica americana, de 1982 a 2002, aumentou sua produção de 75m toneladas para  120m  toneladas,  ao  passo  que  seus  trabalhadores  foram  de  289.000  para 74.000.

 Em 2003, a Alliancie Capital realizou um estudo das 20 maiores economias do globo, abrangendo o período de 1995 a 2002, que descobriu que 31 milhões de empregos  no  setor  de  produção  foram  perdidos,  enquanto  a  produção  teve  um aumento de 30%. Essa  forma de aumentar a produtividade e o  lucro, aliada ao aumento do desemprego, é um  fenômeno novo e poderoso, sem nenhum sinal de mudança à vista.

 O economista Stephen Roach alertou:  “O  setor  de  serviços  perdeu  sua  função  como  desenfreado  mecanismo criador de empregos dos EUA.”

 Onde está o novo setor emergente para empregar todos os desempregados quando essa transição ocorrer? De fato não há uma. Pelo menos não ainda. Embora existam muitos campos de especialização emergindo no reino das informações, eles são  muitos  limitados  em  suas  habilidades  de  oferecer  algo  próximo  a  uma compensação pela vasta perda de empregos que está por vir.

 E enquanto economistas se esforçam para criar modelos para lidar com esse problema  de  desemprego  que  quase  não  para,  estendendo-se  desde  o  apoio financeiro  que  o  governo  dá  ao  trabalhador  (auxílio-desemprego)  até  noções modernas como o “imposto de renda negativo”, a maioria se recusa a considerar o que é realmente preciso para prevenir o caos total neste planeta.

 A  solução  não  reside  em  tentar  “consertar”  os  problemas  que  emergiram, mas sim está na hora de transcender o sistema como um todo. Porque o sistema de troca monetária,  junto  com  o próprio  capitalismo,  está agora  totalmente obsoleto em decorrência da criatividade tecnológica.

 Máquinas  Cibernéticas  não  são  mais  do  que  extensões  criativas  do desempenho humano. Assim como um martelo te ajudaria a pregar um prego num pedaço  de madeira,  uma Máquina  Cibernética  desempenharia  tarefas  complexas, facilitando  os  processos  para  se  obter  um  objetivo  em  particular.  As  máquinas agem conforme o que foram programadas, e nada mais.

 Nas palavras de Arthur C. Clarke:

 “A  ideia  popular,  adotada  por  tirinhas  cômicas  e  pelas mais baratas  formas  de  ficção  científica,  de  que  máquinas  inteligentes devem ser entidades malevolentes e hostis ao homem, é tão absurda, que  seria  um  enorme  desperdício  de  energia  tentar  refutá-la.  Eu estou  quase  tentado  a  argumentar  que  somente  máquinas  não-inteligentes  podem  ser  malevolentes…  Aqueles  que  possuem imagens  de  máquinas  como  inimigos  ativos,  estão  somente projetando  sua  própria  agressividade.  Quanto  maior  a  inteligência, maior  o  grau  de  cooperativismo.  Se  algum  dia  houver  uma  guerra entre  os  homens  e  as  máquinas,  será  fácil  adivinhar  quem  a iniciou.”

Fontes:

1[O MOVIMENTO ZEITGEIST: Guia de Orientação ao Ativista:http://movimentozeitgeist.com.br/arquivos/Movimento%20Zeitgeist%20Brasil%20-%20Guia%20de%20Orientacao%20ao%20Ativista.pdf]

 

2[“Ciência e Religião” (1939-1941) – Págs. 25 a 34. Einstein, Albert, 1870-1955. Título original: “Out of my later years.” Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges – Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira, 1994.]

Mindwalk Ponto de Mutação (1990)

Mindwalk (1990) é um filme dirigido por Bernt Amadeus Capra, baseado no livro O Ponto de Mutação de seu irmão, o cientista Fritjof Capra, autor do livro O Tao da Física.

Local: Mont Saint Michel, França; 1990.

Personagens: uma cientista física Sonia Hoffman, um político estadunidense e ex-candidato presidencial, Jack Edwards e o poeta e ex-redator de discursos políticos Thomas Harriman…

_______________

 …

(Jack – Político): Continue, Sônia, não pare. Quem sabe tem o fragmento do mapa que nós, políticos burros, não conseguiríamos encontrar.

(Sonia – Cientista): Está pensando em termos de fragmentos de novo.

J: É tudo o que temos da imagem geral. Vamos, dê-me um exemplo.

S: Bem, tomemos o problema da superpopulação. Não o resolverá olhando as formas de contracepção isoladamente. Pesquisas demonstraram que o contraceptivo mais eficaz são ganhos econômicos e sociais que reduziriam as famílias grandes.

J: É verdade.

S: Sabia que, no mundo todo, todo dia 40 mil crianças morrem de desnutrição e doenças evitáveis? Quase todo o segundo. Agora… e agora… e agora. Mas estas curtas vidas não podem ser vistas isoladamente. São parte de um sistema maior, que envolve a economia, o meio ambiente, e sobretudo a grande dívida do Terceiro Mundo.

(Tom – Poeta): Como é?

S: O fardo dos empréstimos frenéticos não recaí sobre quem tem contas no estrangeiro ou empresas mas, sim, sobre os que já não têm nada! Há três anos, um presidente perguntou: “Crianças devem passar fome para pagarmos a dívida?” Tal pergunta foi respondida na prática, e a resposta foi “sim” porque, desde então, milhares de crianças do Terceiro Mundo deram a vida delas para pagar a dívida de seus países e outros milhões pagam os juros com corpos e mentes subnutridos. O Brasil, por exemplo: sabia que lá eles destroem a floresta amazônica à razão de um campo de futebol por segundo? Agora… e agora… e agora. Por quê? Tentam pagar a dívida nacional com o gado e as terras. Nem têm tempo para vender a madeira! Põe fogo na floresta! E o desmatamento é uma das causas principais do efeito estufa na atmosfera. Enquanto isso, nós gastamos na corrida armamentista! Como vê, não pode olhar em separado os problemas globais tentando entendê-los e resolvê-los. Claro que pode consertar um peça, mas ela vai quebrar de novo em um segundo porque ignorou o que se conecta a ela. Precisamos mudar tudo de uma vez, ao mesmo tempo. Os ideais, as instituições, os valores.

J: Tudo isso parece familiar. Vocês se conhecem? Isso foi armado? Certo, vou dizer o que penso. Sim, os problemas são complexos, mas você só vê o lado negativo. Temos como resolvê-los. Comunicações, banco de dados, tecnologia, já temos ferramentas para lidar com vários problemas, mesmo que eles sejam complexos.

T: É o próprio Cândido. O eterno otimista.

S: Mas não vê que todas essas novas tecnologias causam mais problemas do que os resolvem? A medicina, por exemplo, avançou espantosamente em tecnologia, mas o custo subiu igualmente. Tornou-se medicina para ricos. E a saúde pública não melhorou muito, embora pudesse melhorar se apenas mudássemos nossos hábitos alimentares. Em vez disso, especialistas pensam em corações artificiais. Se nossa agricultura nos alimentasse melhor em vez de desmatar a Amazônia para criar gado que tem carne vermelha, que é uma das causas dos enfartes, talvez não gastássemos tanto dinheiro com corações artificiais. E por aí vai. São só alguns exemplos de conexões.

J: Mas, Sônia… Tudo bem, suponhamos que tudo esteja conectado, como você diz. É preciso começar, não? A questão política é: por onde?

S: Mudando nossa maneira de ver o mundo. Você ainda procura a peça certa para consertar primeiro. Não vê que todos os problemas são fragmentos de uma só crise uma crise de percepção.

J: Ótimo! O mundo está se acabando e você diz que é uma crise de percepção. Acho meio abstrato. E por que todas essas críticas à medicina moderna? Tudo bem, sou filho de médico mas admita que a medicina mecanicista tem tido sucesso.

S: Bem, até certo ponto… mas simplesmente bloqueando os mecanismos da doença. Isso não é curar. É como na política. Mudam-se os problemas de lugar.

J: Uma pessoa vai ao médico com ataque de cálculos na bexiga, o médico extrai a bexiga e milagre! A dor vai embora. Pode dizer que o modelo de percepção do médico é pobre e que ele só se concentrou numa parte do relógio e a removeu, mas o fato é que o paciente não sente mais dor, e o relógio anda! O modelo de percepção funcionou.

S: Mas tudo que funciona é bom para um sistema?

J: Ora, Sônia, isso é um sofisma que não tem aplicação útil na política! Ela é, afinal, um sistema baseado em pessoas. É a arte de por pessoas em acordo sobre certas ações. Se tais ações derem certo elas ficarão satisfeitas se não, não ficarão. Ou seja, o que funciona é bom, ponto final.

T: Não falou que a política não funciona mais por causa disso e que ela precisava tornar-se a arte do impossível?

J: De que lado você está?

T: O dela, é óbvio. Ela é inteligente, graciosa e mais atraente.

S: Jack, quero voltar à questão dos sistemas. Disse que fui desonesta.

J: Não, não, não.

S: Falemos da bexiga de novo. Ela foi extraída, e a dor se foi, mas e a tensão que causou o problema? Se ela ainda existir o homem ficará doente de novo. Se ele tivesse mudado sua alimentação antes e feito exercícios, nunca teria ficado com pedras na bexiga. Tal educação seria mais barata que a cirurgia. E menos dolorosa. Mas os sistemas não encorajam a prevenção, só a intervenção.

J: Certo, você não é sofista, mas culpar Descartes por isso não é um pouquinho exagerado, talvez até excêntrico?

S: Não se eu estiver certa. Não quero condenar o pensamento de Descartes mas só reconhecer suas limitações. Ver o mundo como máquina pode ter sido útil por 300 anos mas esta percepção, hoje, além de errada, é na verdade nociva. Precisamos de uma nova visão do mundo.

J: Como é a citação? “É tolo uma sociedade apegar-se a velhas idéias em novos tempos como é tolo um homem tentar vestir suas roupas de criança.” É algo assim. Thomas Jefferson. Talvez você não seja louca.

Filme completo em: http://www.youtube.com/watch?gl=BR&v=7tVsIZSpOdI

Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI

Paris, UNESCO, 2-6 de dezembro de 1991

Comunicado final

Os participantes do Congresso “Ciência e Tradição: Perspectivas transdisciplinares para o século XXI” (Paris, UNESCO, 2-6 de dezembro de 1991), etapa preparatória para futuros trabalhos transdisciplinares, estiveram de acordo a respeito dos seguintes pontos:

1. Em nossos dias, estamos assistindo um enfraquecimento da cultura. Isso afeta de diversas maneiras tanto os países ricos como os países pobres.

 2. Uma das causas disso é a crença na existência de um único caminho de acesso à verdade e à Realidade. Em nosso século, essa crença gerou a onipotente tecnociência: “tudo o que puder ser feito será feito”. Com isso, o germe de um totalitarismo planetário se tornou presente.

 3. Uma das revoluções conceituais desse século veio, paradoxalmente, da ciência, mais particularmente da física quântica, que fez com que a antiga visão da realidade, com seus conceitos clássicos de continuidade, de localidade e de determinismo, que ainda predominam no pensamento político e econômico, fosse explodida. Ela deu à luz a uma nova lógica, correspondente, em muitos aspectos, a antigas lógicas esquecidas. Um diálogo capital, cada vez mais rigoroso e profundo, entre a ciência e a tradição pode então ser estabelecido a fim de construir uma nova abordagem científica e cultural: a transdisciplinaridade.

 4. A transdisciplinaridade não procura construir sincretismo algum entre a ciência e a tradição: a metodologia da ciência moderna é radicalmente diferente das práticas da tradição. A transdisciplinaridade procura pontos de vista a partir dos quais seja possível torná-las interativas, procura espaços de pensamento as que façam sair de sua unidade, respeitando as diferenças, apoiando-se especialmente numa nova concepção da natureza. 

5. Uma especialização sempre crescente levou a uma separação entre a ciência e cultura, separação que é a própria característica do que podemos chamar de “modernidade” e que só fez concretizar a separação sujeito-objeto que se encontra na origem da ciência moderna. Reconhecendo o valor da especialização, a transdisciplinaridade procura ultrapassá-la recompondo a unidade da cultura e encontrando o sentido inerente à vida.

 6. Por definição, não pode haver especialistas transdisciplinares, mas apenas pesquisadores animados por uma atitude transdisciplinar. Os pesquisadores transdisciplinares imbuídos desse espírito só podem se apoiar nas diversas atividades da arte, da poesia, da filosofia, do pensamento simbólico, da ciência e da tradição, elas próprias inseridas em sua própria multiplicidade e diversidade. Eles podem desaguar em novas liberdades do espírito graças a estudos transhistóricos ou transreligiosos, graças a novos conceitos como transnacionalidade ou novas práticas transpolíticas, inaugurando uma educação e uma ecologia transdisciplinares.

 7. O desafio da transdisciplinaridade é gerar uma civilização, em escala planetária, que, por força do diálogo intercultural, se abra para a singularidade de cada um e para a inteireza do ser.

Comitê de redação: Rene Berger, Michel Cazenave, Roberto Juarroz, Lima de Freitas e Basarab Nicolescu.

Quem foi o maior cientista de todos os tempos?

Isaac Asimov

Se a pergunta fosse “Quem foi o segundo maior cientista?” seria impossível responder.

 Há pelo menos uma dúzia de homens que, na minha opinião, poderiam aspirar a esse segundo lugar. Entre eles figurariam, por exemplo, Albert Einstein, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Louis Pasteur, Charles Darwin, Galileu Galilei, Clerk Maxwell, Arquimedes e outros.

 Até é muito provável que nem sequer exista isso a que chamamos o segundo maior cientista. As credenciais de tantos e tantos são tão boas e a dificuldade de distinguir níveis de mérito é tão grande, que no final talvez teríamos que declarar um empate entre dez ou doze.

 Mas como a pergunta é “Quem é o maior?”, não há problema algum. Na minha opinião, a maioria dos historiadores da ciência não duvidariam em afirmar que Isaac Newton foi o maior talento científico que o mundo alguma vez teve. Tinha os seus defeitos, pois claro: era um mau conferencista, tinha algo de covardia moral e de chorão auto-compassivo e de vez em quando era vítima de sérias depressões. Mas como cientista não havia igual.

 Fundou as matemáticas superiores depois de elaborar o cálculo. Fundou a óptica moderna com as suas experiências de decomposição da luz branca nas cores do espectro. Fundou a física moderna ao estabelecer as leis do movimento e deduzir as suas consequências. Fundou a astronomia moderna estabelecendo a lei da gravitação universal.

 Qualquer uma destas quatro façanhas teria bastado por si só para distingui-lo como cientista de importância capital. As quatro juntas colocam-no em primeiro lugar de modo inquestionável.

Mas não são só as suas descobertas que é preciso destacar na figura de Newton. Mais importante ainda foi a sua maneira de as apresentar.

 Os antigos gregos tinham reunido uma quantidade ingente de pensamento científico e filosófico. Os nomes de Platão, Aristóteles, Euclides, Arquimedes e Ptolomeu sobressaíram durante dois mil anos como gigantes sobre as gerações seguintes. Os grandes pensadores árabes e europeus lançaram mão dos gregos e mal ousaram expor uma ideia própria sem a referendar com alguma referência aos antigos. Aristóteles, em particular, foi o “professor daqueles que sabem”.

 Durante os séculos XVI e XVII, uma série de experimentadores, como Galileu e Robert Boyle, demonstraram que os antigos gregos nem sempre acertaram na resposta correta. Galileu, por exemplo, deitou abaixo as ideias de Aristóteles sobre a física, efetuando o trabalho que Newton resumiu mais tarde nas suas três leis do movimento. Não obstante, os intelectuais europeus continuaram sem coragem para romper com os idolatrados gregos.

 Depois, em 1687 Newton publicou os seus Principia Mathematica, em latim (o maior livro científico alguma vez escrito, segundo a maioria dos cientistas). Ali apresentou as suas leis do movimento, a sua teoria da gravitação e muitas outras coisas, utilizando as matemáticas no estilo estritamente grego e organizando tudo de maneira impecavelmente elegante.

 Quem leu o livro teve de admitir que a final estava-se perante uma mente igual ou superior a qualquer das da Antiguidade e que a visão do mundo que apresentava era formosa, completa e infinitamente superior em racionalidade e inevitabilidade a tudo o que continham os livros gregos.

 Esse homem e esse livro destruíram a influência paralisante dos antigos e romperam para sempre o complexo de inferioridade intelectual do homem moderno.

 Depois da morte de Newton, o Papa Alexandre resumiu tudo em duas linhas:

“A natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas;

Deus disse “Haja Newton” e tudo se iluminou”

 Observação sobre o movimento absoluto de Newton.

Newton não se preocupou em tentar entender a gravidade, na verdade ele tentou responder algo ainda mais complexo e na minha opinião muito mais importante, o movimento. Quando Newton demonstrou a experiência do balde, demonstrou também  que sua  genialidade estava muita além da de Einstein. Mach tentou compreender criando os conceitos da relatividade, que foi exaustivamente explorado por Einstein. A problema se existe ou não um referencial absoluto continua em aberto, e é interessante como depois de tanto tempo ainda não concordam com Newton, mas também não conseguem provar que ele estava errado, pois vai um pouco além da mecânica quântica e da einsteiniana.

 

“Toda verdade passa por três estágios.

 No primeiro, ela é ridicularizada.

 No segundo, é rejeitada com violência.

 No terceiro, é aceita como evidente por si própria.”

 (Schopenhauer)