Cova

Da cova o homem levanta calmamente
Contempla o orvalho nas folhas levemente douradas
Olha no horizonte e verifica que o tempo já passou
Passou mais do que ele imaginava, não pode voltar

Suas mãos tendem a tremular quando as folhas secas caem
No outono que se passa e na persistente memória
Ainda ouve ele o sussurro dos pequenos dias que teve
Ali na colina ou lá no fim do horizonte em sua quase cidade

Ele está sozinho, sempre esteve
Nos dias de infância vivia com seus brinquedos sempre só
E na adolescência, caminhava nos bosques e nas praças
E das pessoas que encontrava nenhuma carregou no coração

Quando adulto imaginava as mulheres mais lindas
Mas nada podia ser além de um mero observador
Suas palavras confusas repeliam qualquer amizade
E todos os amores que um dia poderia ter

Ali, sentado no banco antigo da praça olhava firmemente
Já idoso com seus quase cabelos brancos
As lindas famílias que passeavam em brilhantes sorrisos

E ele, que nunca pegou uma criança no colo
Nunca apertou a mão de um melhor amigo
E nunca beijou os lábios de uma mulher
Pousou seus únicos dias escrevendo um poema

O poema sobre o tempo,
Sobre um tempo singular

Retornou a cova e voltou a dormir
Pois sabia que a vida continuaria sendo
Sempre a mesma que fora algum dia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s