O sabotador sabotado

Eu sempre descobria os rastros que as memórias deixavam no semblante daqueles que na noite se escondiam, mas quase nunca descobriam minhas habilidades que em dias trabalhados ficavam ocultos na imensidão de minhas conquistas. Em alguns instantes mais réus apareciam, criminosos de todos os lados, muitos mereciam mais do que uma simples prisão, porém meu trabalho era apenas apresenta-los a justiça, embora trabalho não era de forma alguma o meu verdadeiro, era apenas um vício de invadir sistemas através de cyberataques, a noite me guardava a um pensamento heroico usando forças ocultas, e de dia me alimentava das trivialidades da vida com um emprego qualquer.

Eis que naquela noite, atormentado por fantasmas do passado, me deparo com a realidade de um magnata, pedófilo e corrupto do qual nem quero me lembrar de seus males distorcidos por pessoas como eu, mas jogando do outro lado.  Como pode ter tanta maldade, nem sei bem como alguém tem coragem de trabalhar com ele, vi em tudo que podia, e todos os defendem, se quisesse um cargo político o próprio povo o votaria tal é a falsa santidade a ele atribuído. Eu fiquei em minutos sem respirar e ao mesmo momento preocupado com o tempo que levariam para me rastrear, naquela noite eu não dormi.

O cheiro de bacon e pipoca na praça Santos Andrade, os barulhos de conversas alheias assim como seus sapatos tocando o chão, os carros buzinando e acelerando, o semáforo no vermelho, todo movimento caótico de Curitiba, me faz perceber como o campo é bom, mas se eu for para lá serei um inútil, preciso de um sistema operacional conectado à internet, e preciso de pessoas para bisbilhotar. Um homem, mais à frente na Rua XV, movendo várias marionetes apenas com o estalado dos dedos, e eu como curioso tentando encontrar o fio que as conectava, é claro, pensei, “deve ter alguma linha muito fina, não é possível que ele consiga fazer isto, não existe nada de sobrenatural, é apenas um truque”. Mais à frente uma cigana que por sorte minha não me viu, ela não precisa tirar minha sorte já sei que vai ser bom, pois ela não me abordou. Quase chegando perto do bondinho encontro um escandaloso religioso, falando alto sobre demônios e inferno, ninguém parava, mas ele insistia para “aceitar Jesus”, eu é claro não entendia o motivo de tanta devoção, qual o motivo de tanto misticismo, o que faz as pessoas deixarem a ciência para acreditar nisso? Não entendo, mas vejo como as pessoas são conduzidas por estas ideias, e as vezes vão para caminhos errados.

Era sábado e eu decidi sentar e comer algo antes de ir à biblioteca, ao me sentar, uma mulher chegou ao meu lado e entregou um bilhete, saiu velozmente, eu peguei o papel pensando ser o número do telefone dela ou algo assim, porém não foi uma boa notícia. Era um recado de que se eu denunciasse o tal magnata, eles me matariam, poderia não me atormentar, mas a minha frente vi dois homens altos e bem fortes me encarando. Não estavam brincando, mesmo que não me pegassem conseguiriam algo pior com minha família, e eu não poderia colocar eles em risco, então destruí as informações que tinha sobre ele embora no fundo queria muito vê-lo na cadeia, passei os outros dois meses sem bisbilhotar ninguém, era uma garantia de que eu e minha família estaríamos bem. Comentei com minha mãe, meio por cima sem falar nome, que tivera alguns problemas em fazer minha justiça. Minha mãe não me aprovou diretamente mas sabia que eu fazia a coisa certa, já denunciei cerca quase duzentas pessoas, mais da metade continua presa, minha mãe fez o que geralmente as mães fazem, ela disse que rezaria por mim.

Eu estava no meu quarto, era já três da madrugada, mas não estava dormindo, tinha um programa que desenvolvia nas horas vagas, como o outro dia seria domingo, queria aproveitar, e foi isto que eu fiz. Entretanto com o restante das luzes apagadas, a luz do meu quarto começou a piscar, pesei que a luz ia cair, mas não caiu, em poucos segundo tudo voltou ao normal, então algo estranho ocorreu, ouvi um barulho que parecia vir da sala, não dei importância poderia ser minha gata Lis, logo ouço outro barulho, porém uma voz parecia falar bem no meu ouvido “se você não parar de me bisbilhotar te farei mais visitas… você não vai gostar” isso arrepiei tudo mas ainda sem entender e com um pouco de coragem, falei “Quem está com esta brincadeira sai  daí, vou chamar a polícia” erro meu, como eu já estava levantado e com a porta do quarto aberta pude ver uma silhueta na sala, acendi a luz e vi algo horrível, um rosto sem lábios, aparecendo os dentes pontiagudos, olhos esbugalhados e a pele parecendo que estava derretendo tinha uma gosma escorrendo no rosto, o corpo estava escondido atrás da parede. Eu fiquei com tanto medo que simplesmente apaguei, e num piscar de olhos acordo na cama já pela manhã, fiquei com muito medo, pensei de início que seria apenas um pesadelo, porém meu computador ainda estava ligado e eu não me lembrava de deitar na cama, bom pelo menos tiraria os sapatos.

Contei o ocorrido para minha mãe — ela era a única a acreditar em mim — ela disse que este magnata tinha feito um pacto com algo sobrenatural e por isso eu tinha sido atormentado, me aconselhou a rezar e procurar ajuda. Foi então que fomos a estes lugares onde desfazem amarrações e coisa do tipo. Eu não sabia se acreditava ou não em algo sobrenatural, só sei que estava com medo. Entramos e ele pediu informações básicas até que viu o dito ser que me visitou, falou que era algo que nunca tinha visto, é muito poderoso e gosta de enganar as pessoas, parece que não tem uma forma real. Ele não sabia como resolver meu problema, só disse para fazer o que este ser pedisse, que ele iria embora. Bom ele queria que eu parasse de bisbilhotar o tal magnata, o que deveria fazer?

De uma certa forma precisava testar, ainda não estava acreditando que de fato algo sobrenatural estava ocorrendo, mesmo que o fato de ter alguém me observando ser real, não acreditava ainda que um uma entidade sobrenatural estivesse. Na madrugada fui ver como estava as coisas para o magnata, se a entidade existisse então ela apareceria novamente. Passei a noite inteira salvando conteúdo, eu iria denunciá-lo, na manhã seguinte meu pai me liga avisando que minha mãe está no hospital, ela tinha passado mal ontem à noite, detectei um padrão, sabia que se continuasse e denunciasse, minha mãe poderia morrer, era estranho, mas já estava acreditando nesta tal entidade. Eu apaguei novamente tudo e fui para o hospital, cheguei lá, minha mãe já tinha ganhado alta.

Voltando para casa, vejo um vulto, atrás de mim, era estranho, entrei na lanchonete procurando o tal vulto, mas só vi pessoas andando de um lado para outro, o que eu vi era totalmente preto, dava para perceber a diferença, saí e voltei para a rua. Atravessando a faixa com o sinal verde para pedestre, veio um carro em alta velocidade, bateu em mim e eu caí no chão, não me machuquei eu acho, acordei no hospital, falei que já estava tudo bem, mas ninguém queria me ouvir, coloquei minha roupa e saí andando. Ao pegar a Rua XV, vejo pessoas estranhas, muitas das quais eu nunca tinha visto, algumas usando fantasias, parecia um halloween curitibano, a cidade estava muito feia, não sei como, mas alguns conseguiram fazer o efeito da cabeça decepada. Foi quando andando vendo as bizarrices, sento nas escadas da faculdade da UFPR, de repente, veio um senhor bem velho e pergunta “Você é novo aqui? ” Eu respondo que não, moro em Curitiba há mais de cinco anos, o velho não falou nada, mas lá no fundo vindo da praça um homem com uma roupa preta, não sei como ninguém reparava, ele veio até mim, o senhor que estava do meu lado se retirou. Nada falou apenas sorriu e saiu.

Eu estava com uma segurança e uma vontade, pensei, não existe coisas sobrenaturais eu vou de fato denunciar aquele cara, abri os meus aplicativos no celular, baixei os dados do servidor e lancei na internet, direto para a polícia, o engraçado é que eu lembro de ter apagado os dados, mas por algum motivo ainda estavam lá. Eu vi em poucas horas as notícias de que o magnata estava preso, fiquei feliz e fui para casa.

Quando entrei na minha casa vejo minha mãe abrindo meu guarda roupa e chorando, eu perguntei qual era o motivo, ela não me respondia, perguntei várias vezes e era como se eu não tivesse ali, foi então que pensei em abraça-la. Foi em vão não poderia abraça-la, pois tinha morrido na manhã daquele dia, o que tinha restando era apenas um espírito que ficava vagando.

Este é um pedaço da minha história. Obrigado por psicografar, parece que a morte não é exatamente o fim e preciso encontrar sentido até mesmo depois dela, acredite aqui é mais difícil do que quando vivo. Adeus.

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