As flores do mal

Hoje, exatamente hoje completamos dois anos de namoro. Não é incrível como as coisas passam rápido? Eu ainda lembro dela na livraria, usando um vestido azul florido, era verão e seu perfume emanava numa sintonia perfeita. Seus cabelos levemente cacheados e um sorriso meigo me convidavam a uma conversa, é claro que ela começou, eu só estava procurando alguma edição interessante de Rosseau, e entre os livros de filosofia ela também estava procurando algo.

— Nossa, só tem filosofia de séries! Virou moda, não é? – Ela me pergunta olhando firmemente e com um belo sorriso.

Eu não resisti, não podia simplesmente concordar precisava estender a conversa.

— É verdade. Eu praticamente nem assisto séries. Mas acho interessante, talvez os cinéfilos comecem a ler bons livros de filosofia e a ver que a filosofia é mais complexa do que parece.

— Ou os ávidos leitores de filosofia adquirem o habito de assistir séries de televisão.

— Ou esta improbabilidade! — Falei dando sorrisos.

—Eu sou Fernanda, e o você? —  ela estende as mãos para me cumprimentar.

— Renato, eu sou Renato!

A conversa se estendeu onde falamos quais eram nossos autores favoritos desde filosofia até ficção, tomamos um café depois. Tudo foi tão rápido que em pouco mais de uma semana já estávamos inseparáveis, íamos ao cinema nos fins de semana, almoçávamos juntos, fazíamos tour pela cidade só para ficar conversando nos lugares mais bonitos. Tudo era mágico, não demorou muito para pedir em namoro.

Hoje eu vou fazer uma surpresa para ela, estamos ultimamente tão absortos nos nossos estudos que vamos um na casa do outro não para namorar e sim para estudar, é o único momento em que ficamos um com o outro, é claro que namoramos, mas de forma rápida. Temos nossos estudos além dos problemas do trabalho. Às vezes eu ou ela posamos um na casa do outro só para ficarmos mais perto, mas mesmo assim está tudo muito corrido nem sei como estamos aguentando. Hoje à noite tem apresentação da orquestra sinfônica e eu sei que ela adora, não vou mentir, a música erudita também é minha paixão, vamos deixar um pouco os estudos e ir na apresentação será incrível.

— Hoje? Mas podemos comemorar aqui em casa, olha tenho até champanhe que comprei na volta. Eu estou bem cansada para sair hoje, e não estou no clima. — Ela fala se jogando na cama.

— Eu pensei que poderíamos sair um pouco, faz três meses que não saímos nem ao cinema ou ao shopping. Tudo que fazemos é ficar em casa, meus amigos acham que eu nem namoro mais, que você me deixou.

— Mas amor…. Nós vamos ter tempo no final do mês, lembra? Vamos pegar férias juntos e teremos metade do tempo para sair. Eu prometo que vou deixar meus estudos de lado neste período. — Ela me abraçou e deu um beijo, não pude resistir, e aliás ela estava certa, pegaremos férias e vamos descansar um pouco. Também não queria ficar chateado neste dia

— Tudo bem, você me convenceu! Mas dá próxima vez este teu poder hipnotizante pode não funcionar. — Falei com sorrisos, quando olho para o canto, perto da janela um buquê de rosas vermelhas, fiquei intrigado, não queria perguntar, pois deveria ser de alguma amiga, acabei que não falei nada.

Do jeito que as coisas estavam indo, este mês passaria rápido. As férias de inverno nos proporcionariam bons momentos. Eu moro com meus pais e ela sozinha, nossa frequência de visitas diminui muito depois destes meses, acho que estamos trabalhando muito, eu por exemplo saio as 5:00 da manhã e volto as 22:00, a faculdade dela é do outro lado da cidade assim como seu emprego. Os finais de semana tentamos descansar e está ficando cada vez mais raro nossa comunicação física, até mesmo feriados quando as vezes estamos juntos ela só fica estudando. Eu sou estudioso, mas ela é muito mais, muito mesmo.

Pensando nos poucos momentos que ficamos juntos, na semana seguinte eu pretendo fazer algo novo, tem feriado e eu disse que não iria na casa dela, mas vou fazer mais uma tentativa de surpresa, vou visitar ela. Ela deve estar dormindo ou estudando, tanto eu como ela gostamos de ficar sozinhos nos momentos de estudo, nos concentramos mais, percebemos isto depois de alguns meses de namoro.

Eu tenho a chave do portão, não preciso chamá-la no interfone. Bato na porta de seu apartamento, esperando com algumas flores, um buquê bem colorido. Ela abre a porta apressada, talvez esperando suas amigas para estudar juntas.

— Renato? O que você faz aqui? Não ia estudar com seus amigos? — Era óbvio que ela estava esperando alguma amiga, foi realmente uma surpresa para ela.

— Eu vou, mas mais tarde, agora vim te visitar um pouco. — Entregando o buquê — Você está com suas amigas? Faz tempo que não as vejo. — Entrando no apartamento, mas ao mesmo tempo sentindo que ela não queria que eu entrasse.

— Obrigada Renato! Mas na verdade ia sair, dar uma caminhada.

— Mas o café que você está fazendo? — Ao sentir cheiro do café fresco que estava sendo passado na cozinha, entro mais e vejo outro buquê, mas este era de margaridas. — Suas amigas não chegarão? Aposto que foi a Elaine quem lhe deu este buquê. — Ela corre para desligar a cafeteira. Suas amigas tinham costume de trocar flores, ela sempre recebera de várias cores.

— Sim, sim! Foi ela. Ela disse que vai demorar um pouco. Ainda bem que você me avisou do café, deixar isso ligado é um desperdício de energia. — Seu olhar estava diferente, não estava me olhando nos olhos, estava evitando. Mas talvez fosse apenas um desconforto que tinha quando seus pais brigavam, ela agia diferente e não liguei.

— Já que o café está quente, podemos tomar um e depois damos a caminhada. O que você acha? — Ela arregalou os olhos e disse:

— Depois… depois tomamos café. Vamos aproveitar enquanto eu estou com vontade. — Puxando minha mão e me levando para a porta, porém o interfone toca.

— Deve ser sua amiga, deixa que eu atendo. — Eu estava bem próximo do interfone, mas ela interrompeu colocando o corpo na frente e correndo para atender.

— Oi! Como vai?… Eu estou meio indisposta poderia vir outra hora?… Sim está ótimo! Tchau! — Ela não falaria isto para sua amiga, ocorreu-me de olhar a janela antes dela terminar a conversa com sua suposta amiga. Não era nenhuma de suas amigas, um homem da minha altura, cabelos lisos e curtos usando uma camisa laranja, carregando um buquê, não reconheci as flores.

— Você está indisposta? Pensei que íamos até fazer uma caminhada? — Tinha saído da janela ela não percebeu, ela estava agitada.

— É que… eu quero ficar mais um tempo com meu namorado! Podemos caminha depois… — se aproximou de mim tentando dar um beijo, mas esquivei um pouco nervoso.

— Quem era? — Perguntei, mas sem expressar minha raiva.

— Bom… era a Elaine, lembra ela viria aqui. — Pensei um pouco e retruquei.

— Você deixou ela lá fora? Ela veio aqui só para tiver e você fez sua amiga voltar para casa? — Percebi que estava ficando nervoso, não resolveria nada agora era melhor eu esfriar. — Eu lembrei que marquei de encontrar com Anderson daqui meia hora, é melhor eu ir. — Já me aproximando da porta, ela me deu um beijo rápido.

— Se você precisa ir então tudo bem. Você vem amanhã?

— Não, não…. Eu vou estudar…. Até mais. — Saí correndo e não via a hora de chegar em casa.

Eu pensei em abordar o cara que estava saindo com minha namorada — sim no dia seguinte eu a vi ela saindo com ele, e beijando na boca, de uma forma que ela não me beijava mais — mas desisti, não resolveria. Estava com um ódio muito grande, lembrei que nossa relação já tinha acabado a algum tempo, mas ela deveria ter me avisado. De repente me veio na cabeça se ela sempre fizera isto comigo, ou seja, se as flores que ela ganhava das suas amigas era na verdade de outros amantes. Fui até a casa de Elaine, mas ela não estava, então encontrei na praça sem querer outra amiga de Fernanda, Estefani, e perguntei se elas tinham o costume de trocar flores. Ela disse que jamais trocaram flores e ainda me questionou o motivo de querer saber disso se eu já tinha deixado ela a três meses. Isso me desmoronou, “Ninguém troca flores, mas vocês já não terminaram há três meses? ” Estas palavras ficaram na minha mente o dia inteiro.

A noite eu tive uma ideia, eu alugaria um apartamento perto do meu trabalho, só por alguns meses para despistar ela, não queria mais ver e estava decidido, estão escrevi esta carta:

“Fernanda,

O perfume que imaginava eu emanar dos lindos cabelos encaracolados, e se agitava em sorrisos tão meigos me prendendo desde o início. Era na verdade um aviso do nosso efêmero amor que se diluía na longa distância que nossos pensamentos estavam. Eu que senti de todas estas flores o mal que me causou, estou agora tão longe quanto você queria. O tempo nos matou pouco a pouco e o que eu senti de você foi o perfume barato e a tua indecência que não serve mais, das águas que caem quase queimando em meu rosto sinto seu cinismo e sua sedução saindo das vítimas tontas. Volta para a sarjeta e encontre quem lhe queira, pois, para você mentir foi fácil demais, teus truques banais, você acabou ficando para trás. Todos já sabem o que você faz! ”

Era incrível o que ela fazia, saia as vezes até com dois ao mesmo dia, nenhum sabia, e eu só depois de tudo isto, fico pensando quantos deles pediram em namoro e quantos amantes ela realmente tinha. Eu não sei e nem quero mais saber. Ela não me procurou mais, mas isto me alertou e me fez pensar seriamente em ficar solteiro por um bom tempo.

Ela não era assim, ainda não entendo toda cadeia de acontecimentos que existiu para o amor se extinguir, mas sei agora o que todos os outros amantes souberam, não vale apena gastar nosso amor com uma mulher como ela.

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