O objetivo da tecnologia é justamente libertar a humanidade do trabalho

“A satisfação de necessidades físicas é por certo a precondição indispensável de uma existência satisfatória, mas em si mesma não é suficiente. Para se realizar, os homens precisam ter também a possibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artísticas em limites restritivos, segundo suas características e aptidões pessoais.

Para que esta meta , isto é, a possibilidade de desenvolvimento espiritual de todos os indivíduos, possa ser assegurada, é necessário um segundo tipo de liberdade externa. O homem não deve ser obrigado a trabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal que não lhe restem tempo nem forças para as atividades pessoais. Sem este segundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expressão é inútil para ele. Avanços na tecnologia tornariam possível esse tipo de liberdade, se o problema de uma divisão justa do trabalho fosse resolvido.” 

(Albert Einstein)

 

O grau de “valor” de um produto ou serviço se deriva basicamente de dois fatores:

1.  A escassez (disponibilidade) do material usado. 

2.  A quantidade  de  mão-de-obra  necessária  para  produzir  um  produto  ou serviço. 

Por exemplo:

Imagine quanto  tempo  e  esforço  seria  necessário  para  criar  uma  simples camisa  antes  do  advento  da  eletricidade  e  da  avançada  tecnologia  industrial.  O processo geral  deveria  ser:  preparar  a  solo  –  plantar  a  semente  do  algodão  – supervisionar o período de  crescimento  –  colher  o algodão – extrair  a  semente – fiar  o  algodão,  transformando-o  em  linha  –  tecer  a  linha,  transformando-a  em tecido – e, com o tecido, confeccionar a camisa.

Dado o exemplo acima, apenas  levando em consideração a mão-de-obra, o valor da camisa seria relativamente alto e ela provavelmente seria vendida por um preço  de  acordo  com  esse  extensivo  trabalho.  O  valor  da  semente  do  algodão (componente  material)  seria  desprezível  já  que  ela  é  produzida  como  um subproduto da colheita principal, fazendo com que seu grau de escassez seja muito baixo. Portanto, o real valor dessa camisa se daria através do trabalho envolvido.

Agora,  hipoteticamente  falando,  e  se  esse  processo  de  produção  não requeresse  mão-de-obra,  enquanto  a  semente  do  algodão/água/luz  solar/solo mantivesse  sua  abundância  natural?  Qual  seria  então  o  valor  da  camisa?  Obviamente, ela não teria valor algum.

No início do século XXI, máquinas industriais tomaram a função de plantar e colher produtos agrícolas ao ponto de um único fazendeiro poder trabalhar mais de  1000  acres  de  terra  sozinho.  O  advento  de  equipamentos  têxteis,  como  o  descaroçador de algodão,  reduziram dramaticamente o esforço humano, enquanto  que, com o moderno uso de computação industrial, estamos vendo uma constante gravitação à quase total automatização das indústrias agrícola e têxtil, entre muitas outras.

A  questão  é  que  o  emprego  do  “valor  econômico”  como  uma  noção econômica  aparentemente  estática  está  sendo  agora  revisado  por  essa  influência tecnológica  (aumento  da  facilidade  de  produção/abundância material)  que  pode, teoricamente, eliminar totalmente a noção de “valor”.

Quando a mão-de-obra é reduzida/substituída por tecnologia e automação, o suposto “valor” que equaliza o “trabalho” ao “preço” cai respectivamente. O “valor” do produto seria então  transferido para a criação/manutenção da maquinaria, que agora  faz  o  papel  dos  trabalhadores.  Consequentemente, quanto mais eficientes, duráveis e  sustentáveis  forem  essas máquinas  operárias, mais  cairá  o  “valor”  da produção. 

A  realização é que a automação das máquinas,  juntamente com modernas inovações  que  estão  encontrando  substitutos  para  recursos  “escassos”,  poderia conduzir-nos a um ponto onde nenhum bem ou serviço precisaria de um “valor” ou etiqueta de preço. Simplesmente não faria nenhum sentido teórico. 

Para a maioria,  isso é uma coisa muito difícil de considerar, graças ao que estamos  acostumados  a  experimentar  em  nosso  dia-a-dia.  Independente  de  sua opinião,  o  fato  é  que  a  tendência  de  constante  avanço  tecnológico  unido  à maquinaria automatizada pode  teoricamente criar um ambiente econômico onde a abundância de materiais e meios de produção são  tão elevados e eficientes que a maioria dos humanos terá pouca necessidade de “comprar” algo, deixando de lado o “trabalhar para viver” no senso tradicional. 

No  cerne  do  sistema  econômico  está  o  mecanismo  de  trabalho  por rendimento.  Todo  o  nosso  sistema  econômico  é  baseado  em  seres  humanos vendendo  seus  labores  como  uma mercadoria  no mercado  livre.  Se  os  humanos não tivessem a opção de “trabalhar para seu sustento”, o sistema monetário como conhecemos, acabaria.

Ninguém pode comprar mercadorias se não ganha dinheiro. As companhias não podem  produzir  se  o  consumidor  não  tem  poder  de  compra  algum. 

Como  John  Maynard  Keynes,  em  The  General  Theory  of  Unemployment, Interest and Money, aponta com desdém: 

“Estamos sendo afetados por uma nova doença, sobre a qual alguns leitores podem  ainda não  ter  ouvido  falar, mas que  certamente  irão nos  anos que estão por vir – a  saber, o  ‘desemprego  tecnológico’.  Isto  é, o desemprego causado  por  nossas  descobertas  de  meios  de  economizar  trabalho ultrapassando  o  ritmo  no  qual  conseguimos  descobrir  novos  usos  para ele.”

Embora  políticos,  líderes  empresariais  e  proletários  debatam  acerca  dos problemas  que  eles  alegam  serem  os  responsáveis  pelo  crescimento  do desemprego mundo  afora,  como  o  outsourcing  de  companhias  estrangeiras  ou  o trabalho  imigrante,  a  verdadeira  causa  não  está  sendo  abordada  no  debate público: o desemprego tecnológico. 

Nas palavras do economista ganhador do Prêmio Nobel Wassily Leontief:

“O papel dos humanos como os  fatores mais  importantes na produção está fadado a diminuir do mesmo modo que o dos cavalos na produção agrícola foi  primeiramente  reduzido  e  depois  eliminado  com  a  introdução  dos tratores.”

Desde que o capitalismo mercantil é baseado na lógica de reduzir os custos de  entrada  (incluindo  os  de  mão-de-obra)  para  elevar  os  lucros,  a  tendência  a substituir força de trabalho humana sempre que possível por automação mecânica é uma progressão natural na indústria. Afinal, uma máquina não precisa descansar, não exige plano de saúde ou benefícios, e não  faz parte de um exigente sindicato trabalhista. 

Em 1949, as máquinas colhiam 6% do algodão no sul dos EUA. Por volta de 1972, 100% da colheita de algodão passou a ser feita mecanicamente. Quando a automação atingiu o setor de produção americano na década de 50, 1,6 milhões de empregos de  colarinho azul  foram perdidos em 9 anos.

Em 1860, 60% dos EUA trabalhavam na agricultura, ao passo que hoje são menos de 3%.  Em  1950,  33%  dos  trabalhadores  americanos  trabalhavam  no  setor  de produção, enquanto que por volta de 2002 tornaram-se apenas 10%. A indústria metalúrgica americana, de 1982 a 2002, aumentou sua produção de 75m toneladas para  120m  toneladas,  ao  passo  que  seus  trabalhadores  foram  de  289.000  para 74.000.

 Em 2003, a Alliancie Capital realizou um estudo das 20 maiores economias do globo, abrangendo o período de 1995 a 2002, que descobriu que 31 milhões de empregos  no  setor  de  produção  foram  perdidos,  enquanto  a  produção  teve  um aumento de 30%. Essa  forma de aumentar a produtividade e o  lucro, aliada ao aumento do desemprego, é um  fenômeno novo e poderoso, sem nenhum sinal de mudança à vista.

 O economista Stephen Roach alertou:  “O  setor  de  serviços  perdeu  sua  função  como  desenfreado  mecanismo criador de empregos dos EUA.”

 Onde está o novo setor emergente para empregar todos os desempregados quando essa transição ocorrer? De fato não há uma. Pelo menos não ainda. Embora existam muitos campos de especialização emergindo no reino das informações, eles são  muitos  limitados  em  suas  habilidades  de  oferecer  algo  próximo  a  uma compensação pela vasta perda de empregos que está por vir.

 E enquanto economistas se esforçam para criar modelos para lidar com esse problema  de  desemprego  que  quase  não  para,  estendendo-se  desde  o  apoio financeiro  que  o  governo  dá  ao  trabalhador  (auxílio-desemprego)  até  noções modernas como o “imposto de renda negativo”, a maioria se recusa a considerar o que é realmente preciso para prevenir o caos total neste planeta.

 A  solução  não  reside  em  tentar  “consertar”  os  problemas  que  emergiram, mas sim está na hora de transcender o sistema como um todo. Porque o sistema de troca monetária,  junto  com  o próprio  capitalismo,  está agora  totalmente obsoleto em decorrência da criatividade tecnológica.

 Máquinas  Cibernéticas  não  são  mais  do  que  extensões  criativas  do desempenho humano. Assim como um martelo te ajudaria a pregar um prego num pedaço  de madeira,  uma Máquina  Cibernética  desempenharia  tarefas  complexas, facilitando  os  processos  para  se  obter  um  objetivo  em  particular.  As  máquinas agem conforme o que foram programadas, e nada mais.

 Nas palavras de Arthur C. Clarke:

 “A  ideia  popular,  adotada  por  tirinhas  cômicas  e  pelas mais baratas  formas  de  ficção  científica,  de  que  máquinas  inteligentes devem ser entidades malevolentes e hostis ao homem, é tão absurda, que  seria  um  enorme  desperdício  de  energia  tentar  refutá-la.  Eu estou  quase  tentado  a  argumentar  que  somente  máquinas  não-inteligentes  podem  ser  malevolentes…  Aqueles  que  possuem imagens  de  máquinas  como  inimigos  ativos,  estão  somente projetando  sua  própria  agressividade.  Quanto  maior  a  inteligência, maior  o  grau  de  cooperativismo.  Se  algum  dia  houver  uma  guerra entre  os  homens  e  as  máquinas,  será  fácil  adivinhar  quem  a iniciou.”

Fontes:

1[O MOVIMENTO ZEITGEIST: Guia de Orientação ao Ativista:http://movimentozeitgeist.com.br/arquivos/Movimento%20Zeitgeist%20Brasil%20-%20Guia%20de%20Orientacao%20ao%20Ativista.pdf]

 

2[“Ciência e Religião” (1939-1941) – Págs. 25 a 34. Einstein, Albert, 1870-1955. Título original: “Out of my later years.” Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges – Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira, 1994.]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s